Revista Fotoptica Nº 94 - 1980 Biblioteca de Fotografia do IMS - Coleção Thomaz Farkas

VOCÊ VIU? Os se gredos de H amilton O que é preciso para ser um bom fotógrafo? O que faz o bom fotógrafo é seu jeito de olhar para o que fotografa: jeito que a foto ­ grafia revela. Não falo da figura que está lá, na foto. Falo do olhar do fotógrafo enquanto tirava a fo ­ to. Que diz a foto sobre o olhar do fotógrafo? Sem compreender o olhar do fotógrafo mui ­ tas fotos se fazem profundo mistério. David Hamilton é o caso mais sério de to ­ dos. De amor do fotógrafo pelo que fotogra ­ fa. Não é a paixão de fotografar - sem mais. E o amor que se sente diante daquilo, no momento de fotografar. Sem esta comuni ­ cação imediata e instantânea não se fotogra ­ fa gente. Foi este o problema moral e psico ­ lógico que me fez meditar e pesquisar o efei ­ to Hamilton em fotografia: como é que jo ­ vens de 13, 14 ou 15 anos podem SER MOSTRADAS de um modo tão inocente e, ao mesmo tempo, tão funda e delicadamen ­ te erótico? Que faz este homem p ara obter este efeito? Não basta a técnica. E preciso compreender o personagem - que na obra se revela. Pintor primeiro. Hamilton consegue as cores que quer e depois se compraz e deleita imi ­ tando todos os pintores do mundo com suas Madonas Lolitas. Climas, cores, pregas, lu ­ zes - acima de tudo luzes, difusas sempre, sempre com um foco de mais luz no quadro - que é sempre o lugar do foco precioso; o mais se esbate e se esfuma. A luz, a clareza e a nitidez estão sempre so ­ bre o mesmo tema: intimidade. Não é a nitidez do centro que comunica inti ­ midade; é o indistinto da periferia, da mol ­ dura. Todos os fotógrafos sabem que para sugerir intimidade, visão interior, a técnica é esta: esfumar os contornos do quadro. Já nem sempre se diz que na verdade nossa recordação imediata de algum evento tam ­ bém é assim. Quando, no campo visual, alguma coisa nos prende com força, não vemos quase nada do que está em volta da área significativa. Além disso, é assim que os olhos vêem: um centro - minúsculo - de nitidez máxima e lo ­ go uma queda de 90% da acuidade visual (são dados e medidas fisiológicas exatas). Campo limitado por luz, por sombras, por nitidez em volta da moldura borrada: do ínti ­ mo, do “ irreal ” do “ fantástico ” . Até aí é fá ­ cil. E técnica. E truque. 62 Mas é preciso ver o que está no centro do truque. Se é íntimo mesmo. Se é o íntimo. Não sei se a intimidade de uma adolescente não é uma das coisas mais difíceis de serem mostradas-porque é muito escondida - por ­ que é muito disfarçada... Como é que ele consegue isso - que é um dos sonhos mais persistentes e luminosos entre os muitos sonhos eróticos já havidos pelos homens: o amor sensual inocente, o que vem de alguma fonte interior sem a marca, sem a forma de um papel represen ­ tado, de um preconceito, de uma obriga ­ ção, de um hábito. Inocente quer dizer sem ciência - sem con ­ tacto - sem saber nada. Só o que é e o que está aí - sem noção prévia (sem preconceito), sem saber como deve ser, co ­ mo se deve fazer - ou não fazer. Descoberta. Em cada momento. Revelação - a cada passo - a cada gesto - a cada olhar. E vergonha - ou embaraço - acanhamento. E tudo tão surpreendente que é preciso ir devagar, assimilando a cada passo, sentindo bem - sentindo inteiro. As adolescentes, todos nós esperamos que elas sejam assim. Elas são assim. Mas não é fácil conseguir que elas se mos ­ trem assim. Como Hamilton consegue? Eu sei o segredo, Ele é tão delicado e suave e envergonhado quanto a sensibilidade nas ­ cente na adolescente. E preciso olhar para ela assim. Vendo sua sensualidade inocente - ou sua inocência sensual. Mas é preciso olhar muito bem. Basta uma sombra de “ desejo adulto ” e a in ­ timidade se esvai - por mágica - em um ins ­ tante. Basta um olhar de papai complacente e a sensualidade se transfigura em depen ­ dência infantil - “ papai, me proteja ” . Basta um olhar sexual - o de cada um; qua ­ se todos maus, porque só se olha bem o que se aprecia e não apreciamos nossa sexuali ­ dade • ainda que vivamos falando dela. Ela é sempre meio oblíqua, quase sempre en ­ volvida em desprezo e condenação - recí ­ proca! Vergonha, culpa, exploração, apro ­ priação (posse) e outras coisas assim fazem com que o olhar dos homens muitas vezes se mostre feio quando mostram desejar uma mulher. Tenho para mim que se os homens mostras ­ sem um desejo mais limpo e mais bonito e mais direto creio que as mulheres aceitariam o convite para o encontro. Já foi dito e é definitivo: se os homens sou ­ bessem conquistar as mulheres, não haveria mais virgens (nem mulheres fiéis) . Saber conquistar quer dizer: levar o outro em consideração... Já estamos chegando lá, ao segredo do Ha ­ milton. Ao seu olhar. Ao olhar com que ele olha suas meninas lindas, adoradas da mais adequada e conveniente das distâncias, com os modos mais gentis que se possa querer. Hamilton olha para seus modelinhos com um imenso encantamento. E seus modelinhos, olhados assim, só po ­ dem fazer uma coisa: mostrarem-se por in ­ teiro. Mostrarem sua intimidade inteira - para quem sabe olhar - acolher - fruir - e encantar-se mais ainda. Porque este é o toque moderno - o feed- back. Quanto mais olhadas com encanta ­ mento - e desejo - mais as adolescentes bri ­ lham de inocência - e de erotismo. E mais o fotógrafo se encanta - mais mostra que se encanta - e mais elas brilham... Louvado seja o Hamilton que por seu amor pode nos mostrar a intimidade inocente e sensual das adolescentes. Quem sabe se olhando para elas nós apren ­ damos um pouco do que ele sabe tão bem. Dr. José Angelo Gaiarsa

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