Revista Fotoptica Nº 94 - 1980 Biblioteca de Fotografia do IMS - Coleção Thomaz Farkas
Hoje ele está aposentado e tranqüilo em sua casa, no bairro dos Campos Elíseos. O descanso é merecido, pois, no início do século, esse senhor de 89 anos enfrentou todas as dificuldades existentes num país subdesenvolvido para conseguir produzir um papel fotográfico nacional. E conseguiu. Tanto que, posteriormente, a Kodak se interessou por sua pequena indústria, com a qual acabou se associando para fabricar o papel Wessel/Kodak. Nesta entrevista, Conrad Wessel fala de sua iniciativa pioneira, dos negócios e de algumas mágoas que ficaram pelo caminho. tir, quando foi convidado a visitar a fábrica de linhas Corrente. Lá descobriu uma má quina de gomar linha que, com algumas al terações, poderia resolver os seus proble mas. Com isso, atingiu o nível de qualidade que almejava e pôde lançar seu produto. Uma amizade para toda a vida Muito jovem ainda, o industrial em vias de fracasso acumulava os cargos de quími co, operador de máquinas, relações- públicas e vendedor. E foi nas suas andanças como vendedor que ele acabou conhecendo Desidério Far kas. Recém-chegado da Hungria Farkas possuía uma pequena loja de material foto gráfico na Rua São Bento, a FOTOPTICA. Do contato comercial, iniciou-se uma amizade que só terminou com a morte de Farkas, há alguns anos atrás. Essa amizade de mais de sessenta anos acabou se transfor mando, por parte de Wessel, em uma gran de admiração pelo filho do grande amigo, Thomaz Farkas: “ Conheci o Thomaz quan do ele tinha quatro anos, lá na loja do pai, que era ainda muito pequena. Depois, ele se formou em engenharia pela Escola Politécni ca, tomou as rédeas da empresa e deu um impulso muito grande ao negócio iniciado pelo pai. Ainda me lembro do Desidério, fa lando das idéias ousadas do filho em expan dir o negócio. Ele falava assustado, mas com muita admiração que o Thomaz queria mu dar tudo, aumentar muito e está aí, hoje é um colosso, creio que a maior loja do gêne ro no Brasil ” . Nessa época, as marcas de papel fotográ fico mais vendidas eram a Kodak, a Gevaert e Agfa. Desidério Farkas promoveu muito a venda dos produtos Wessel, colocando-os em destaque na sua loja e sempre oferecendo-os aos clientes. “ O Desidério tornou-se um grande divulgador dos meus produtos. Era uma pessoa muito boa e que me ajudou muito. ” A vocação O amor à fotografia ocorreu na vida de Wessel pela convivência com fotógrafos e com os materiais químicos que ele conhecia desde muito pequeno, quando seu pai tinha uma loja de material fotográfico a GUI LHERME WESSEL E CIA. A loja ficava na Rua São Bento, no centro de São Paulo, próximo ao local onde anos mais tarde Desi dério Farkas instalou a sua loja: “ Acho que sou o homem de fotografia mais velho do Brasil. Desde os dez anos que trabalho com isso. Desde cedo ajudei meu pai, e foi lá que me interessei por fotoquímica ” . Como fotógrafo amador, recebeu dois prêmios instituídos pela Secretária de Agri cultura do Estado de São Paulo. Por causa dos prêmios acabou sendo convidado a tra balhar na própria secretaria. Lá conheceu um técnico francês que estava no país a ser viço de uma empresa de material fotográfico e cinematográfico, a GAUMONT. Com ele estudou durante seis meses, e ao final rece beu um atestado de fotógrafo e cinegrafista. Isso aconteceu no ano de 1908. Em 1910, seu pai, convencido da sua vo cação para a fotografia, enviou-o a Viena para estudar química e aperfeiçoar seus co nhecimentos na técnica de fabricação de cli chês, necessária à expansão do negócio da família. Estudou três anos em Viena e, ao retor nar, conseguiu autorização para frequentar o curso da Escola Politécnica como ouvinte. Especializou-se em fotoquímica, dedicando- se exclusivamente a estudos de emulsões para fotografia. A Revolução de 24 Os negócios iam realmente mal, os pro dutos Wessel permaneciam sufocados pela concorrência. Apesar de muito incentivado pelo pai, que o apoiou financeiramente, Conrad sabia que os recursos estavam se es gotando e que a solução final teria de ser a desistência. Talvez o negócio do jovem químico tives se acabado, se não fosse a Revolução de 1924. Como as ligações entre São Paulo e o Rio de Janeiro ficaram cortadas e os escritó rios das importadoras estavam no Rio, os es toques de material fotográfico das lojas pau listas foram escasseando. Os fotógrafos pro fissionais, principalmente os do Jardim da Luz, começaram, com muita desconfiança, a usar os produtos Wessel. Logo a notícia da qualidade dos papéis Wessel se espalhou e os estoques há muito acumulados se esgotaram. A partir desse acontecimento, houve um período de pros peridade que Conrad Wessel imaginava fos se terminar com o final da crise política. Ao contrário do que imaginava o já pou co otimista Wessel, quando os papéis impor tados voltaram às lojas, a sua ainda recente clientela permaneceu fiel, e as vendas au mentavam a cada dia. Os representantes das empresas estrangeiras chegaram a vir a São Paulo para saber a razão da queda das ven das. A Kodak, que havia perdido grande par te dos seus consumidores, propôs comprar toda a produção da Wessel para distribuí-la. Conrad Wessel aceitou o acordo porque lhe pareceu vantajoso ter a produção vendida para um único cliente sem ter que pensar na distribuição. O contrato vigorou durante cin co anos. Conrad Wessel acredita que a sua ajuda foi muito importante para a penetração das indústrias Kodak no Brasil. Apesar disso, tem uma certa mágoa, porque ao final dos cinco primeiros anos o contrato, foi renova do por mais cinco. Nesse novo contrato fi cou acertado que o papel continuaria com a marca Wessel, mas a partir daí estabelecia-se uma sociedade entre as duas empresas. A Kodak construiría a nova fábrica e Wessel en traria com o capital. O contrato estabelecia 40% para a Kodak e 60% para Wessel. Conrad Wessel viajou para os Estados Unidos e orientou a fabricação de todas as máquinas que haviam sido por ele projeta das. A nova fábrica, instalada na Rua Dr. Antônio Bento, em Santo Amaro, desenvolveu-se muito, e os papéis Wessel ganharam a notoriedade merecida, até se tembro de 1954, quando o contrato expi rou. Depois disso, ainda durante alguns meses o papel Wessel aparecia nas lojas com o no me Wessel/Kodak, passando posteriormen te a apresentar-se apenas com o nome Ko dak. Nessa ocasião, Conrad, que já era um homem de bastante idade, retirou-se dos ne gócios. Muito magoado até hoje, ele explica que não compreende como as fórmulas e a fábrica ficaram com a empresa estrangeira, que nem mesmo cumpriu o acordo de man ter o seu nome na marca do papel. Já com bastante idade e sem nenhum herdeiro que pudesse auxiliá-lo a começar tudo de novo, Wessel abandonou seus pla nos e aposentou-se nesse ano, passando a administrar outros negócios que possuía. Hoje, sentado em sua bonita casa no an tigo bairro dos Campos Elíseos, cercado de móveis que o acompanharam pela sua longa vida e das pinturas a óleo feitas por Dona Frida, sua esposa, que ele prefere chamar de companheira, e que são motivo de imenso orgulho para este sensível nonagenário, ele recorda: “ No meu tempo as coisas eram bem mais fáceis. Ainda havia amigos como Desidério Farkas, que nos ajudavam desin teressadamente ” . Olhando da sacada para o seu bem- cuidado jardim, Conrad Wessel diz que, se tivesse que começar nos dias de hoje, talvez não o fizesse, porque o mundo empresarial ficou muito complicado, muito competitivo: “ Se fosse hoje, possivelmente eu não teria coragem para me lançar em tal aventura ” . 57
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